CANETA ESTUDANTIL

Essa seção busca erguer pontes entre o movimento estudantil nacional.
Essa seção busca erguer pontes entre o movimento estudantil nacional. Em cada edição, estudantes das sedes dos encontros de economia compartilham suas reflexões.



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Agroindústria familiar no Nordeste
Jamile Silva Santos (CAECO UFMA)
Quando olhamos para a agroindústria de grande escala no Maranhão, vemos diversos casos de interesse ambicioso nas terras dos pequenos produtores familiares. O caso do sudoeste do estado, na região de Imperatriz, expõe a aceleração da monocultura de grandes fazendas sobre áreas antes ocupadas por famílias agricultoras, reduzindo a disponibilidade de terras para lavouras diversificadas.
Trata-se de uma região muito estratégica em termos de logística para acessar os mercados do Nordeste uma vez que faz parte da fronteira agrícola do Matopiba onde há expansão rápida do agronegócio. Como a concentração fundiária e a pressão do agronegócio elevam o preço do arrendamento, o acesso dos agricultores familiares não-proprietários é limitado e se intensificam os conflitos por terra. A chegada da produção de eucalipto, por exemplo, quando são oferecidos a eles valores da ordem de R$ 20 mil reais por mês de aluguel pelas terras em um contrato de vários anos, é uma proposta praticamente irrecusável.
A questão é o desmonte dos potenciais produtivos que existiam no local, desestruturando comunidades e causando a migração de pessoas. Com isso, o processo de saída dos pequenos produtores é difícil de reverter. Ao mesmo tempo, essas monoculturas de larga escala possuem alto risco de danificar permanentemente o solo, sendo caríssima a recuperação da terra posteriormente. Assim, há impacto ambiental, desestruturação de comunidades, ganhos individuais de curto prazo que podem deixar de ocorrer no futuro, e o abandono dos outros potenciais que poderiam ser desenvolvidos naquele território.
Um lado da questão está na necessidade de regular mais o grande agronegócio, reorientando-o para explorar terras atualmente improdutivas, e criando complementaridades. É possível conciliar o agronegócio e o pequeno produtor em uma relação saudável de competição em termos menos desiguais e com complementações incentivadas, mas para isso são necessárias políticas públicas ativas nesse sentido.
Mas o outro lado da moeda está na situação que faz o pequeno produtor ceder. Isso ocorre, muitas vezes, porque de outro modo ele não tem grandes perspectivas e panorama de futuro. Em muitos casos os métodos de produção são arcaicos, os produtores estão dispersos, sem organização, e não possuem capacitação para compreender o mercado e se inserir competitivamente. Nesse cenário, chamam atenção os casos de sucesso dos pequenos produtores.
O caso do leite é exemplar. É um setor com muito potencial por ter subprodutos caros (como queijo e iogurte) e com diversidade para adaptar-se às flutuações da demanda (ora produzindo mais nata e requeijão, ora mais leite e queijo, por exemplo). A indústria de laticínios tem se destacado em todo o Nordeste por cooperativas de pequenos produtores bastante desenvolvidas: é a agroindústria familiar, com maquinário e capacidade de beneficiar, embalar e rotular os produtos, e ao mesmo tempo chegar ao consumidor final com uma oferta estável, evitando atravessadores e aumentando a margem de lucro.
A organização em cooperativas une concorrentes para complementar suas produções, ganhando escala e podendo atender melhor a demanda. Ao mesmo tempo, permite que as famílias se organizem em um rodízio de quem está à frente da produção, enquanto as outras pessoas podem estudar inovações, mercados, e se capacitar.
A cooperativa Terra Conquistada no Ceará, oriunda da reforma agrária, é um expoente da região, e as regiões sul e sudoeste do Maranhão também se destacam na indústria de laticínios. A Laticínio Serrano, localizada em Balsas, no sul do estado, foi fundada em 2018 por ex-cooperados, focando em queijos artesanais e iogurtes em embalagem premium. A empresa investiu em ordenhadeiras mecânicas e assistência técnica regularizada, reduzindo a contagem bacteriana do leite. Além disso, conquistou selo de Indicação Geográfica (IG) do cerrado maranhense, ampliando a distribuição para 200 pontos de venda no Nordeste. Por sua vez, a Cooperativa Água Doce, de São João do Paraíso, sudoeste do Maranhão, foi criada em 2016 por produtores familiares para organizar a venda coletiva de leite. Eles adotaram tanques de resfriamento e controle de qualidade padronizados, apoiados por projeto do Sebrae e do Fundepec-MA. Em dois anos, elevaram a média de produção em 50%, garantindo faturamento 15% acima do preço de mercado local.

Em todos esses exemplos, um fator em comum é a capacidade de organização e de industrialização do processo. É a transformação da estrutura familiar em negócios coletivos profissionalizados e com a incorporação da mecanização da produção, fortalecendo os produtores para aguentar as pressões do grande agronegócio sobre o uso da terra.
O futuro da agroindústria nordestina não depende apenas da expansão tecnológica ou da atração de grandes investimentos, mas da capacidade de incluir o pequeno produtor como protagonista do desenvolvimento. A organização em cooperativas, o acesso à mecanização e a valorização dos produtos locais são caminhos para transformar desafios em oportunidades. Mas, para que isso se torne realidade, é essencial que políticas públicas atuem de forma estratégica, promovendo equilíbrio entre os interesses do agronegócio e a sustentabilidade das comunidades rurais. O Nordeste tem vocação produtiva, diversidade cultural e força comunitária – elementos que, quando bem articulados, podem redefinir o modelo de desenvolvimento rural brasileiro.
Jamile Silva Santos – Graduada em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), foi vice-presidente do CAECO Ignácio Rangel pela gestão Celso Furtado (2025); Conselheira do Corecon-MA Acadêmico (2021-2025).







