Imaginar o futuro

Precarização pela IA e a difícil situação latinoamericana

De América Soy é uma rede regional de estudantes de economia, pessoas acadêmicas, ativistas e organizações que promove o ensino e o debate público sobre temas de justiça socioambiental, desenvolvimento e igualdade na América Latina.

Nessa dupla de páginas, apresentamos matérias feitas em parceria com a rede De América Soy de economistas da América Latina.

O escritor argentino César Aira escreve em Varamo que a vida tem qualidades demais, tantas que nunca se sabe bem quais que elas são. Nos últimos anos, o mesmo se pode dizer da inteligência artificial: tem tantas qualidades que nem sabemos quais são. A IA pretende facilitar as tarefas que exigem pensar, e eliminar nosso esforço para aprender e formar opinião sobre qualquer coisa. Parece que pensar é perder tempo, e tempo é dinheiro: que desperdício! Mas para que mesmo vão servir a IA generativa (do ChatGPT e similares) e os “agentes de IA” (que tomam decisões)? Vamos realmente trabalhar menos? É esse o tipo de avanço tecnológico que vai nos salvar, de quê?

O trabalho, para a maioria de nós, foi historicamente uma das ferramentas mais eficazes de ascensão social e é nossa única arma contra a pobreza, mas sua efetividade é muito maior nos países industrializados (onde o salário mínimo é bem mais alto) do que no chamado Sul Global. Aqui, na América Latina, o mercado de trabalho tem poucas oportunidades para os mais jovens, sendo cada vez mais difícil construir uma carreira formal – que dê direito a aposentadoria, férias remuneradas e outros serviços de assistência. Entre 2012 e 2022, a proporção de trabalhadores autônomos aumentou na região, ainda que os assalariados sigam sendo a maioria dos jovens empregados (CEPAL,  2024). 

Pensar que a IA vai melhorar as condições de trabalho extenuantes que vivemos atualmente é ser muito otimista. Aqui, o futuro sempre foi incerto, e novos desafios se somam aos antigos, conhecidos e estruturais. Passamos de uma década perdida para outra, ou, quando temos um pouco de sorte, de uma década ganha para uma crise profunda, tudo apenas para começar de novo em busca de segurança alimentar, financeira, acesso à moradia, à Justiça e à participação política. 

O que se vê, na realidade, é essa tecnologia substituindo trabalhadores e gerando desemprego, como nas áreas de logística, contabilidade, montadoras de automóveis e áreas criativas. A Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2025) estima que um em cada cinco trabalhadores no mundo está exposto às mudanças trazidas pela IA generativa. Os novos empregos que surgem são menos qualificados e pagam menos. Afinal, o trabalhador só opera a máquina, que é quem “pensa” e cria conteúdo mais rápido. Outros são jogados para o setor de serviços e a informalidade, como nos serviços terceirizados de entrega e transporte Rappi, 99 e Uber.

No plano macro, nosso cenário não é promissor com a IA. O economista mexicano Jaime Ros tem uma interpretação sobre o México que pode ser estendida para toda a nossa região: vivemos um círculo vicioso de estagnação, aumento de violência e alta desigualdade (Ros, 2015). A isso se somam agora os choques inflacionários decorrentes das erráticas tarifas dos EUA, e a prática oportunista das grandes corporações globalizadas de aproveitar choques (como guerras, pandemias, tarifas, etc.) para escalar seus preços, ampliar lucros e agravar a inflação – o que a economista alemã Isabella Weber chama de “Seller’s Inflation” (Weber, 2023). Os enclaves produtivos modernos que temos, voltados para a exportação, dependem da cada vez mais conflituosa situação externa, enquanto, de resto, ficamos com nosso capitalismo de subsistência, informalidade e alto desemprego. 

Nesse contexto, pensar que a IA é uma ferramenta neutra, que só expande nossas possibilidades, não leva em conta a transversalidade que a desigualdade possui em regiões como a nossa. Veja-se o caso da expansão agressiva dos data centers que os modelos de IA necessitam, e que no México e no Chile vêm tendo efeitos perversos de stress hídrico e de desapropriação de terras para as suas instalações e para sua infraestrutura (Jiménez et al., 2025). A América Latina é então o quintal perfeito para as Big Techs: livre de regulações, de controles ambientais e do planejamento territorial de cidades como Tokyo ou Frankfurt, é terra de poucos – ou de ninguém.

Como sair desse círculo? Qual desenvolvimento queremos? Bem, não há dúvida de que os Estados nacionais precisam liderar políticas de redistribuição da riqueza. E fazer investimentos em setores com alta intensidade tecnológica, além de uma estratégia de desenvolvimento para inovação e criação de empregos de qualidade (Cimoli e Porcile, 2025). Um bom exemplo: no México, a política de valorização do salário mínimo dos últimos anos (concebida na década passada, cf. Moreno-Brid et al., 2014) já dobrou seu valor real, enquanto o emprego expandiu e não houve impacto nos preços (Munguía, 2025).

Enquanto tentamos retomar a luta política, no plano pessoal nos entregamos à IA para simular termos qualidades que não temos. Conversando nessa câmara de ecos em uma relação parassocial, vamos esquecendo a força mobilizadora do encontro entre pessoas de verdade, da nossa criatividade, nossa opinião, nosso ensino. Fará a IA a luta política por nós? Como dizia Aira, se chegou a hora do fim do pensamento, o que resta para nós fazermos?


Por: Karen Mendiola

Edição: André Aranha

Referências

Aira, C. (2002) Varamo. Editorial Anagrama, Barcelona.

Cimoli, M., & Porcile, G. (2025). Tecnología, heterogeneidad y crecimiento: Una caja de herramientas estructuralista (Biblioguías Raúl Prebisch y los desafíos del Siglo XXI). Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL). https://biblioguias.cepal.org/ld.php?content_id=30425075

Moreno-Brid, Juan & Rodríguez Kuri, Ariel & Campos-Vazquez, Raymundo & Yanes, Pablos & Becerra, Ricardo & Azuela, Antonio & Bensusán, Graciela & Esquivel, Gerardo & Ros, Jaime & Provencio, Enrique. (2014). Política de recuperación del salario mínimo en México y el Distrito Federal; Propuesta para un Acuerdo Nacional. Preparada por el grupo de Expertos: A.Azuela, G.Bensusán, G.Esquivel, J.C.Moreno-Brid, A.Rodriguez Kuri, E.Provencio, J.Ros Bosch, P.Yanes y R.Campos, y coordinado por R.Becerra y SEDECODF. 10.13140/2.1.4492.9289.

Munguía, L. (2025) Como o México dobrou o salário-mínimo. Phenomenal  World, disponível em: https://www.phenomenalworld.org/pt-br/analises/como-o-mexico-dobrou-o-salario-minimo/

Organização Internacional do Trabalho – OIT (2025). Generative AI and jobs: A 2025 update. https://www.ilo.org/publications/generative-ai-and-jobs-2025-update

Ros, J. (2015). ¿Cómo salir de la trampa del lento crecimiento y alta desigualdad? El Colegio de México; Universidad Nacional Autónoma de México.

Weber, I. M., & Wasner, E. (2023). Sellers’ Inflation, Profits and Conflict: Why can Large Firms Hike Prices in an Emergency? University of Massachusetts Amherst. https://doi.org/10.7275/CBV0-GV07

Silva, V. (2025). Primeiros data centers de IA no Brasil podem consumir mesma energia de 16 milhões de casas; conheça os projetos. https://g1.globo.com/inovacao/noticia/2025/08/03/primeiros-data-centers-de-ia-no-brasil-podem-consumir-mesma-energia-de-16-milhoes-de-casas-conheca-os-projetos.ghtml?utm_source=whatsapp&utm_medium=canais&utm_campaign=g1

Espacio Obra. (2025). Arquitectura de Datos: cómo los Centros de Datos moldean las ciudades del Futuro. https://espacio-obra.com/arquitectura/centros-datos-diseno-urbano-arquitectura

Jiménez, P., Alarcon, M., Dib, D. (2025).The Backyard of AI. https://pulitzercenter.org/stories/backyard-ai

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