Para que(m) serve ser economista?

Entrevista com Hildete Pereira de Melo

Hildete Pereira de Melo é uma referência na economia feminista brasileira desde os anos 1970. Paraibana, foi militante estudantil desde 1961 e depois militante feminista na academia, na política e nas ruas. Radicada no Rio de Janeiro, a professora da UFF exerceu diversos cargos públicos em órgãos de políticas para mulheres, como o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (1985-89) e a Secretaria de Políticas para as Mulheres (2009-2010 e 2012-2014). Escreveu e organizou diversos livros, dentre os quais destacamos “Mulheres e poder: histórias, ideias e indicadores” (2018) em coautoria com Débora Thomé.

Hildete Pereira de Melo é uma referência na economia feminista brasileira desde os anos 1970. Paraibana, foi militante estudantil desde 1961 e depois militante feminista na academia, na política e nas ruas. Radicada no Rio de Janeiro, a professora da UFF exerceu diversos cargos públicos em órgãos de políticas para mulheres, como o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (1985-89) e a Secretaria de Políticas para as Mulheres (2009-2010 e 2012-2014). Escreveu e organizou diversos livros, dentre os quais destacamos “Mulheres e poder: histórias, ideias e indicadores” (2018) em coautoria com Débora Thomé.


Você foi precursora nos estudos sobre desigualdade de gênero e economia feminista no Brasil. Como foi essa experiência?

O feminismo varria solto já na década de 1970, entre advogados, sociólogos… Mas na economia havia poucas mulheres, acredito que por causa da aridez do campo. Em 1980, eu e minhas companheiras, Maria Valéria e Juno Pena, entre outras, criamos uma associação de mulheres economistas da UFF e da UFRJ. E produzimos uma edição especial da Revista de Literatura Econômica do IPEA voltada para a economia pensada pelas mulheres e para elas. 

Foi lançada em 1987 com textos de autoras brasileiras e estrangeiras, como o artigo da Francine Blau que está bem na moda atualmente. Também publicamos a tradução de alguns capítulos do livro do Stuart Mill “A sujeição das mulheres”, de 1869. Esse autor é estudado como um clássico da teoria econômica, mas esse livro era pouquíssimo conhecido. Mill foi um grande aliado da causa feminista. Ao publicá-lo, queríamos mostrar como o tema não era recente e que até homens discutiam a desigualdade de gêneros. 

Mas a revista foi motivo de chacota. Essa chacota foi a expressão do patriarcado e do machismo que está enraizado em nossa sociedade. Os economistas não estavam preparados para ouvir as mulheres. Para você ver, eu não estou falando de 100 anos atrás, eu estou falando das décadas de 1980 para 1990. Foi a minha geração quem deu empurrão nos estudos de gênero.

Quando a senhora se formou na UFPB, quais eram as questões que te motivaram a estudar economia? 

Quando eu fiz vestibular, queria fazer Direito e ser advogada das ligas camponesas, como uma grande amiga. Mas em Campina Grande só tinha sociologia ou economia. Eu fui fazer economia, estudar o livro de Celso Furtado, Formação Econômica do Brasil. Tive aula com professores que fizeram cursos na CEPAL, no Chile. Tudo isso me fez querer estudar o Nordeste, e ir trabalhar na Sudene era o meu sonho. 

Semana passada eu fui para um congresso em Recife e vi o prédio da Sudene lá, todo sucateado. Eu me formei vendo o Brasil pelas lentes de Celso Furtado, mas a vida a gente não controla, logo veio o golpe e tudo mudou. É a vida, é a vida, é a vida!

Qual a perspectiva para as mulheres que estão se formando hoje em economia? Será que ainda precisamos gritar para ser ouvidas?

Sim, ainda precisam gritar, ainda que hoje as portas estejam mais abertas. Mas ainda vejo muitos problemas, que começam na socialização dentro de casa. Quando você dá uma boneca para uma menina, implicitamente está dizendo: isso aqui é o teu futuro, cuidar de outra pessoa. E para o menino, você dá um caminhão, um avião, uma bola, uma possibilidade de futuro.  

Mulheres estudam mais que os homens, e mesmo assim ganham menos que eles em todas as ocupações. No Brasil, todas as estatísticas que investigam horas trabalhadas por gênero mostram a mesma situação de quando eu era menina: mulheres são protagonistas nos trabalhos domésticos e não vemos o avanço da divisão desses trabalhos entre homens e mulheres.

Por isso eu sempre digo: precisamos de política pública. O governo deve criar creches e escolas em tempo integral, como é a jornada de trabalho, porque ninguém sai do trabalho 3 horas da tarde. Alô, alô mulheres brasileiras, essa é uma briga que precisamos travar no Congresso. Ainda ganhamos 20,9% a menos que os homens. Para a geração que está se formando agora, tenho um recado: o sonho da remuneração igualitária entre os gêneros continua e é preciso lutar para concretizá-lo.

Outra questão difícil é construir representação feminina em cargos públicos. A representação política das mulheres brasileiras é muito baixa, há menos de 20% de mulheres na Câmara apesar de sermos 53% da população. Até hoje é exceção ver vereadoras, prefeitas, governadoras… Não podemos esquecer, na república brasileira tivemos apenas uma presidenta – e fizeram o impeachment dela. 

Para quem serve a economia?

Olha, deveria servir ao povo. A sociedade em que vivemos é capitalista. Podemos continuar sonhando com alternativas, mas é preciso manter o pé no chão e buscar maneiras concretas de melhorar as condições de vida do povo. Então, é preciso brigar por melhores salários, por igualdade de oportunidades, por maior representação política feminina…

Eu não acredito que você ganhe direitos de graça. Ainda sou da época que havia povo faminto no Brasil. As coisas melhoraram, os governos Lula e Dilma mudaram isso. Criaram uma série de políticas públicas para trazer o povo para o orçamento, e você conseguiu acabar com a fome. Mas foi ao custo de muita luta e depois de muitas eleições perdidas. 

Eu acredito que as coisas só acontecem se houver pessoas que botam bandeira na mão. O futuro é incerto. Eu sou uma mulher de 82 anos, e o que eu sei é que é preciso que a geração atual tenha muita garra e lute para construir uma sociedade justa, igualitária, sem fome e com mais direitos trabalhistas.

Vai ter eleição no ano que vem. Já vão pensando em quem vão votar. Não só na cabeça da chapa, pensem em todos os âmbitos, deputado estadual, deputado federal, senador.

Você tem alguma mensagem para os estudantes de economia? 

A mensagem que eu mando é: vale a pena estudar, ler e pensar os clássicos. Eles são considerados clássicos por bons motivos!

Pessoalmente, eu acredito que a carreira de economista pode ser muito especial. Nós ajudamos a fazer a máquina pública funcionar e ao mesmo tempo podemos traçar políticas públicas mais efetivas, mais igualitárias. Fica a cargo dos futuros economistas continuar a fazer política distributiva, garantir um salário-mínimo com maior poder de compra, essa é a receita. 

E se gostar, vai para a carreira política: se candidata! Se a gente não mudar o parlamento brasileiro, a gente vai morrer afogado na praia, mais uma vez.


Edição: Sofia Nery

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