Se a economia melhora, por que a vida não melhora?

Juliane Furno: crescimento, emprego e PIB não bastam sem indústria, salários e perspectivas de futuro.

Juliane Furno

Juliane Furno é ex-assessora especial da presidência do BNDES, professora da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto Tricontinental.

O salário médio das ocupações com ensino superior caiu 12% nos últimos 12 anos e um em cada três trabalhadores já tem formação acima do que a função exige, um “diploma sem futuro”. O que esse quadro revela sobre o lugar do Brasil na divisão internacional do trabalho?

Não basta haver bons indicadores macroeconômicos, como inflação, crescimento, relativa estabilidade cambial, aumento do emprego, aumento da renda média. Essas coisas não refletem exatamente como a população se sente, especialmente a mais jovem, já que em torno de 70% da população entre 16 e 24 anos reprovam o governo. 

Para a juventude, o padrão de consumo global virou sinônimo de sucesso, mas é muito mais difícil consegui-lo na periferia do capitalismo. Essa geração tem ainda a expectativa de que as novas gerações continuem a viver melhor que as gerações passadas, e de muito mais êxito profissional porque muitos de nós somos os primeiros das nossas famílias a acessar o ensino superior. Então, é frustrante saber que nós vivemos em geral com menos segurança que os nossos pais, e com menos acesso a bens de consumo duráveis.

O neoliberalismo implantado no Brasil a partir da década de 80, acelerando a partir da década de 90, fez o país ter como um dos motores de crescimento interno a produção de bens de consumo de baixo valor adicionado – em consequência, tendo que importar produtos de alto valor adicionado. É o oposto do que foi na ditadura militar, quando o eixo mobilizador do crescimento  esteve nos bens de consumo duráveis; só que as classes mais baixas não acessavam esses bens. O recente “milagrinho brasileiro” é sustentado pelo consumo de massas, o que é positivo, mas comparando ainda com o milagre econômico, o motor de desenvolvimento durante os anos 60 e 70 era a grande indústria, elevando seu grau de complexidade e avançando para escalas de produção muito maiores, que demandavam um trabalho mais qualificado e protegido. 

Agora a gente tem um processo de desindustrialização, a perda de participação do emprego industrial na ocupação total e, por consequência, uma perda de empregos que pagavam mais e eram inclusive base de sustentação do movimento sindical. 

Você passou anos na universidade, se especializou, tinha uma expectativa de sucesso profissional, e a reforma trabalhista, a reforma da previdência, a desindustrialização, vão gerando um cenário de muita angústia. A gente não sabe se vai ter emprego, possivelmente não vai se aposentar ou vai se aposentar com salários muito baixos. E aí eu acho que as respostas que os governos progressistas têm dado são insuficientes para dialogar com o sentimento real de frustração de uma juventude que está vocalizando um sentimento de mudança. A gente deveria atuar mais por mudanças de caráter estrutural e não só diagnosticar o quanto a juventude da geração presente é diferente das gerações passadas porque é mais individualista ou qualquer outra coisa. Tem um sentimento legítimo.

O que a política industrial pode resolver para gerar empregos de qualidade?

Durante muito tempo a gente conceituou a industrialização como um processo bastante poluente, muito intenso no uso de recursos minerais. O Brasil se industrializou concentrando renda, riqueza e a atividade econômica em termos regionais. A gente tem que pensar a reindustrialização brasileira em novos termos para poder ocupar um lugar mais de vanguarda do processo produtivo. Não pode ser a indústria da Segunda Revolução Industrial, nem a continuidade de um processo desigual em termos internacionais, em que a concorrência capitalista do centro obriga as grandes empresas a desovar as suas máquinas obsoletas, e com isso a periferia se industrializa. A gente tem que competir no mercado internacional não da forma tradicional que a periferia compete, que é com baixos salários e atividade sindical mais suprimida, mas a partir de elementos tecnológicos e das nossas vantagens comparativas. A grande revolução que a nossa geração vai ver é a da transição energética, e para ela os países vão precisar de capacidade instalada, capacidade produtiva, fontes de energia limpa, mercado interno. Todas essas coisas a gente tem. A gente tem uma estatal que é a Petrobras, tem a Eletrobrás, recentemente privatizada, mas que é uma empresa nacional, a gente tem grandes capacidades de reservatório e armazenamento, um bom regime de chuvas, sol, vento, especialmente no Nordeste. Tudo isso podemos usar para gerar empregos mais qualificados, não só no chão de fábrica, mas também em serviços, retendo conhecimentos e ganhos de produtividade a partir de uma política de financiamento com subsídios. No Brasil isso parece um palavrão, mas a Europa e os EUA têm feito políticas industriais com bancos de investimento para subsidiar setores estratégicos, com um plano federal que aponte para onde vai cada empreendimento, e que tipo de contrapartida essas empresas que recebem recursos subsidiados têm que devolver para o Estado em termos de geração de emprego e de arrecadação fiscal. A política industrial tem um papel central para mobilizar e subordinar o setor privado às necessidades de um plano eleito pela coletividade.

O governo federal busca o fim da escala 6×1, mas não parece que a precarização da classe trabalhadora vai ser revertida.

Os governos petistas têm um mérito muito significativo no que fizeram e ao recuperar vários programas, mas não elegeram como prioridade desfazer o que fizeram os governos neoliberais a partir do Fernando Collor. A ditadura militar, com todas as suas características autoritárias e desnacionalizantes, ainda tinha um projeto de Brasil industrial desenvolvido crescendo a altas taxas. O neoliberalismo dinamitou as principais bases daquele modelo, erguidas na Era Vargas. Tanto é que uma das frases do Fernando Henrique quando senador era: “Nós vamos destruir a Era Vargas“. Temer não se candidatou para presidente nas eleições seguintes ao seu mandato, não precisou passar pelo crivo das urnas, então cumpriu um papel importante para a classe que ele representa. Eles foram muito bons em destruir o sistema previdenciário tal como era, a universalidade da carteira de trabalho, e a expansão das universidades. O governo Bolsonaro continuou a retirar do Estado variáveis importantes do desenvolvimento econômico, em especial a taxa de juros, a própria política fiscal, e empresas estatais, com privatizações importantes como a da Eletrobras.

Na base da pirâmide social, o trabalho CLT ainda é a regra, ainda que com baixos salários, mas conforme você adquire um diploma de nível superior, a possibilidade de que você seja pejotizado é muito maior, e você não vai ter, por exemplo, o acesso a políticas públicas de moradia, com o FGTS, uma certa proteção à demissão involuntária, com a multa do FGTS, férias e 13º. Na reforma da Previdência, a idade para se aposentar aumentou, e dentro do próprio governo a gente ouve iniciativas como desvinculação dos benefícios da Previdência do salário-mínimo, que bem ou mal ainda tem uma política de valorização, ainda que menor do que no passado. Acho que o não enfrentamento desses legados dá uma sensação de traição que deve ser um ingrediente para a baixa aprovação do governo, mesmo numa situação de melhora econômica.

E além dessas questões, temos o “terrorismo econômico” da mídia tradicional, e as grandes corporações estrangeiras que direcionam desinformação aos usuários das redes sociais. A mídia tradicional, quando os indicadores econômicos melhoram, como o do emprego e o da renda, fala em alerta inflacionário. Como esse distanciamento da realidade afeta a percepção da classe trabalhadora?

A imprensa e o direcionamento de informações pelas plataformas cumprem um papel importante para desinformar pessoas que, vendo as coisas melhorando, ao mesmo tempo veem no jornal e nas redes que talvez isso seja porque elas vão piorar. Com a redução das concentrações industriais, que permitiam o trabalho de base da esquerda, a direita soube aproveitar essa carência nos espaços periféricos do Brasil, uma carência de infraestrutura, de emprego, de lazer que, em boa medida, as igrejas neopentecostais organizam e dão uma resposta. E o tema econômico nunca é o principal mobilizador, a extrema-direita mobiliza mais dizendo que o governo Lula é ruim porque é corrupto, porque é de esquerda, porque é amigo de ditador, porque traz ideologia de gênero, porque agora a sociedade parece estar uma bagunça. Eles foram hábeis no sentido de unir um grupo de sustentação política que vai fechar os olhos para coisas como emprego, renda, porque estão bastante consolidados em coisas mais apaixonantes.

O Brasil tem metas para inflação, teto do arcabouço fiscal e outras métricas apresentadas como neutras, mas não tem metas para salário real, segurança alimentar ou emprego industrial. O que explica essas escolhas sobre o que merece ou não ter meta e a ilusão da neutralidade?

A história econômica brasileira desde o século XX foi marcada pelo dilema entre crescer e estabilizar. Os teóricos do desenvolvimento, como Hirschman e Furtado, mostram que as características das economias periféricas são muito diferentes das economias centrais. Aquilo que a Europa levou 100 anos para fazer, a periferia precisa fazer em 20, precisa queimar etapas para se inserir na corrida produtiva e tecnológica internacional. Então o nosso processo de crescimento é desequilibrado, tem que fazer tudo junto porque para produzir bens de consumo vamos precisar de siderúrgica, etc. São muitos gargalos produtivos.

Os sucessivos governos, desde Vargas, optaram por crescer. Havia uma subordinação da estabilidade aos objetivos do crescimento. Vamos aceitar um certo nível de inflação porque nós temos que desenvolver, inclusive porque mesmo os industriais estavam mobilizados num projeto de crescimento econômico, de complexificação da industrialização. Era um período também de hegemonia das ideias keynesianas. O próprio pensamento conservador brasileiro era positivista, marcado pela ideia do crescimento do Estado. Isso muda a partir do final da década de 80, com o neoliberalismo, que opta por estabilizar [a economia]. Mesmo que os governos Lula e Dilma não sejam neoliberais, porque eu não os conceituo a partir dessa chave, eles governaram o Brasil sob a hegemonia global do neoliberalismo. Então há muito mais restrições e é muito mais presente – e chantageada – a ideia de que o Brasil precisa estabilizar. 

No governo Castelo Branco havia o Programa Estratégico de Desenvolvimento com metas para crescimento, mas não para estabilização, embora se falasse sobre isso. Tinha meta para cada setor produtivo, para crescimento da indústria de transformação, para educação. Agora o que a gente vê são metas exatamente para estabilização: meta fiscal, de superávit, para a inflação, e não deixa de ser uma meta a ideia de que o câmbio tem que ser flutuante. Se crescer, tudo bem, se não crescer, também tudo bem. O governo Bolsonaro provou que é possível o aumento da taxa de lucro mesmo em períodos em que a massa total de lucro cai porque aumenta a exploração sobre o trabalho. E essas coisas aparecem de forma neutra para a gente. A economia, e a maneira como ela é apresentada na imprensa, parte da ideia de que tem coisas que são objetivos comuns, mas não existe interesse nacional ou interesse comum numa sociedade capitalista porque ela é dividida em classes sociais. A gente essencializou alguns termos, inflação necessariamente é ruim, superávit primário necessariamente é bom. Não existe o bom em essência. É bom para quem? Nada é neutro do ponto de vista distributivo. A gente perdeu aquilo que está lá na economia política clássica, inclusive pré-Marx. Está no Ricardo a ideia de que a sociedade vive um conflito distributivo e está submetida à luta de classes. A economia tem que refletir esse tipo de indicador para onde vai, quem se apropria, quem ganha, quem perde, inclusive como as mulheres perdem, como os negros se beneficiam ou não. Precisamos de um estudo detalhado de onde a gente quer chegar. Por exemplo, para chegar à universalização do cuidado, quantos empregos ou quanto de financiamento vai ser exigido por ano para que a gente chegue em 2050 nesse patamar? Isso deve guiar a política fiscal, e não o contrário, os gastos sociais precisarem se acomodar a uma regra fiscal pré-estabelecida.

Estamos vendo a renda crescer, mas o consumo das famílias não aumenta por causa de endividamento e apostas.

Durante a pandemia, o Senado debateu a possibilidade de uma taxa máxima de juros no cheque especial e no cartão de crédito, e o senador Lazier Martins (Podemos-RS) disse: “Não dá para fazer isso hoje sem saber o que que vai ser do setor financeiro daqui a dez anos”. E eu pensei: ele acabou de aprovar um teto de gastos, que é congelar para daqui a 20 anos sem saber quanto vai ser o crescimento populacional, etc. Durante os governos Vargas e na própria ditadura militar, sempre houve teto para juros no crédito pessoal e no crédito industrial. Hoje o spread bancário é gigantesco, e se justifica por um motivo torpe: os juros são altos porque a inadimplência é alta e a inadimplência é alta porque os juros são altos. Então cartão de crédito tem ali uma taxa média de mais de 300% ao ano, crédito pessoal chega a 900%. Nenhum país se desenvolveu sem controlar e regulamentar o sistema financeiro e o custo do crédito.

Essas taxas transferem centenas de bilhões do trabalho para o capital financeiro, são “impostos privados”. E o serviço da dívida pública transfere mais de R$ 800 bilhões anuais e é naturalizado como um custo, enquanto o Bolsa Família, que custa R$ 168 bilhões, volta ao debate como um problema fiscal, né?

A transferência de renda para os mais pobres tem um efeito multiplicador muito maior na sociedade, inclusive na própria base da pirâmide social, pelo tipo de consumo, que gera emprego para pessoas com aquele mesmo nível de qualificação. Quando você transfere renda para o sistema financeiro, ao contrário, o dinheiro fica entesourado, parado. O custo fiscal com a Selic é um paradoxo: aparentemente a taxa de juros precisa subir, porque há um risco fiscal, mas a taxa de juros alta aumenta a dívida pública. E isso não aparece na imprensa burguesa. Então o problema não é exatamente a dívida pública, ela é um instrumento importante para que o Estado possa garantir gastos obrigatórios independentemente do nível da receita; o problema são os juros altos, grande motor de transferência de renda da sociedade para um punhado de famílias que são os grandes sócios dos bancos.

Você já argumentou que a esquerda ocupa hoje o discurso da ordem, da defesa das instituições, de reconstrução e de seguir avançando enquanto a extrema direita tomou esse papel de ruptura estrutural, mesmo que de forma demagógica. O que a esquerda precisa fazer para retomar a linguagem da transformação sem perder as conquistas?

A ofensiva golpista da extrema-direita, de desestruturação do Estado democrático de direito, acabou empurrando a esquerda para a defesa da manutenção da ordem. E a esquerda passou por um processo muito grande de institucionalização desde o primeiro governo Lula, que impacta o movimento sindical muito fortemente, e várias outras lideranças populares que acabaram indo cumprir tarefas no parlamento e no governo; tarefas muito importantes, mas que dificultam a diferenciação entre o que é governo e o que que é movimento social. As experiências históricas recentes que obtiveram mais sucesso ou que foram capazes de empreender mudanças mais estruturais foram as de governos que optaram por governar com a sociedade civil mobilizada, apontando quem são os inimigos da classe trabalhadora, e com mais trabalho de base e comunicação social. O Lula é um grande negociador, mas quanto mais a gente se aproxima do centro para poder fazer frente a esses setores de extrema direita, mais a gente vai caindo na vala comum da velha política. Quando a gente não se diferencia, e, do ponto de vista das pautas econômicas, quando a nossa bandeira fica sendo “olha como as coisas estão melhores”, sem dialogar com esse sentimento de que as coisas de fato estão ruins, a gente esvazia a nossa capacidade de representação. O SUS é muito bom, mas se a gente chegar nas pessoas que usam o SUS e disser que o SUS é lindo, a gente está completamente descolado da realidade porque as pessoas morrem na fila do SUS. A gente tem que dizer que o SUS é um grande patrimônio e ele está muito ruim, portanto, temos que melhorá-lo, porque a outra opção é destruí-lo. Assim como a gente não pode dizer “tá tudo lindo” e o salário-mínimo aumentou R$ 64. Ainda é muito insuficiente para cobrir as necessidades básicas. E ainda: “que bom que você tem um diploma, mas a gente precisa agora avançar para uma mudança estrutural para que a gente tenha emprego”. E a extrema direita apresenta isso, ainda que de forma tosca, porque na verdade eles não chegam nesse grau de complexidade, eles só dizem: “Tá tudo ruim”. E a palavra de ordem deles é: “Eu vou mudar tudo que está aí”. Isso é muito sedutor, principalmente para os jovens, que têm um ímpeto transformador.


edição: patrícia maurício
entrevista: júlia borges

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