Biomas por Dólares

CANETA ESTUDANTIL

Essa seção busca erguer pontes entre o movimento estudantil nacional. 
Essa seção busca erguer pontes entre o movimento estudantil nacional. Em cada edição, estudantes das sedes dos encontros de economia compartilham suas reflexões. 

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Essa seção busca erguer pontes entre o movimento estudantil nacional. Em cada edição, estudantes das sedes dos encontros de economia compartilham suas reflexões. 

Biomas por Dólares

Caroline dos Santos Barbosa & Oscar Luís Rosa Moraes Santos (DAECO – UFBA) (CAECO UFMA)

A microrregião de Norte Araguaia (MT) destinava menos de mil hectares ao plantio de soja no ano 2000. Em 2024, esse número ultrapassou 1,1 milhão de hectares, um salto que ilustra a velocidade com que a soja reconfigurou o uso da terra no Cerrado brasileiro nas últimas décadas. Rech et al. (2025) propõem o conceito de sojificação para o fenômeno: não se trata apenas da expansão da área plantada, mas da hegemonia dessa cultura sobre todas as demais atividades econômicas de um bioma. A soja deixa de ser uma cultura entre outras e passa a organizar, sozinha, o uso do solo e da água, e a própria base industrial local

Entre 1985 e 2023, 96% de todas as novas terras incorporadas à agropecuária no Cerrado foram destinadas à soja ou à cana (Brasil de Fato, 2023). A fronteira mais recente desse avanço é o Matopiba, a porção do Cerrado compartilhada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Nessa área, o solo reúne características que melhoram a produtividade: sais minerais da Caatinga, matéria orgânica da área amazônica e as planícies fluviais do Planalto Central, ácidos e alumínio do Cerrado. A área plantada cresceu 2,2 milhões de hectares na última década, dos quais quase 40% vieram do desmatamento. Os efeitos dessa concentração vão além das fronteiras do Cerrado: o Pantanal caminha para a quase extinção e o Pampa enfrenta risco crescente de colapso (Overbeck et al., 2015).

Esse padrão de dominância não é exclusivo da soja. A cana-de-açúcar, mesmo com uma trajetória histórica distinta, compartilha do mesmo resultado estrutural: o setor primário-exportador absorve novos incentivos de política pública sem que sua base produtiva seja questionada. E isso é reforçado pela política brasileira de transição energética.

O programa Combustível do Futuro, que em 2025 elevou o percentual de etanol na gasolina para 30%, é apresentado como parte da agenda de descarbonização. Contudo, ao não alterar o modelo produtivo do agronegócio, principal vetor de degradação ambiental no país, parece repetir o histórico do Proálcool: em vez de modificar a estrutura predatória das indústrias ligadas à cana-de-açúcar e à soja, oferece a elas novos mercados e incentivos de crescimento.

A cana, matéria-prima do etanol, carrega desde o século XVI um padrão de concentração fundiária que se aprofundou justamente com o Proálcool, quando as primeiras destilarias se instalaram em propriedades já consolidadas do setor sucroalcooleiro. Nem o “Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar”, finalizado em 2019 como uma ferramenta técnica e legal para orientar a expansão sustentável da cultura no Brasil, conseguiu reverter o padrão.

A soja segue essa trajetória no Cerrado, com a diferença de que sua expansão se apoia mais diretamente na expansão da fronteira agrícola via desmatamento e grilagem. A sojificação do Cerrado, a reprimarização da economia brasileira e a arquitetura da política de biocombustíveis não são três fenômenos paralelos, mas momentos de um mesmo mecanismo. Na terra, ele aparece como expansão da fronteira agrícola sobre biomas nativos; na balança comercial, como dependência crescente de commodities; na política pública, como decisões que ampliam mercados para o mesmo setor em vez de alterar sua base produtiva. As três escalas se realimentam, pois em todas existe o mesmo mecanismo de ampliação da fronteira agrícola por um setor primário-exportador que gera divisas no curto prazo às custas de uma dependência estrutural que se aprofunda no longo prazo. Nesse contexto, as decisões políticas que levam a economia do país a essa situação estrutural não podem ser consideradas meros acidentes ou erros, mas frutos de escolhas objetivas para benefício de dado grupo social, sujeitas às condições históricas que o sistema-mundo capitalista vem colocando desde o fim do século XX.

Apesar da grande luta da classe trabalhadora, sobretudo no interior do país, pelo direito à terra, essa vem sendo cada vez mais posta a serviço de entes estrangeiros. A soja transgênica autorizada em 2003 é tida como o divisor de águas do agronegócio brasileiro, mas esse movimento vem de mais longe. No livro A soja através da história mundial (The Soybean Through World History – capítulo 6), as pesquisadoras Baraibar e Deutsch remontam à virada dos anos 1980 para os 1990 quando a crise da dívida externa latino-americana e as exigências de credores internacionais empurraram os países da região a reorganizar suas economias em torno da geração de dólares. 

Os governos enfraqueceram instrumentos de controle sobre a terra, como programas de titulação fundiária, e abriram caminho para privatizações e acordos bilaterais de investimento que facilitaram a compra, o arrendamento e a exploração por capitais estrangeiros de áreas até então fora do circuito comercial. A soja ocupou o lugar aberto por décadas de reformas que subordinaram a política agrária às necessidades do balanço de pagamentos.

A rentabilidade do campo brasileiro segue amarrada às variações dos preços internacionais das commodities de um jeito que poucos outros setores da economia replicam. Em 2014, por exemplo, quando as cotações despencaram no mercado global, o superávit comercial despencou junto, e o país mergulhou numa espiral de endividamento. Isso culminou no fortalecimento da ideologia da austeridade, com a aplicação de cortes de gastos, ajuste fiscal e enfraquecimento dos serviços públicos. A própria arrecadação de alguns países passou a depender do grão: na Argentina, tributos sobre as vendas externas de soja foram usados para honrar dívidas e bancar programas do Estado. Isso explica por que, mesmo sob forte oposição de movimentos rurais e ambientais, nenhum governo conseguiu se afastar do modelo por muito tempo.

Em abril de 2026, os preços das commodities voltaram a subir, e a soja responde por mais de um quinto de tudo o que o Brasil exporta. O acordo Mercosul-União Europeia abriu mais uma via de escoamento para os primários da região em troca de bens industriais europeus, reproduzindo o padrão. Nesse sentido, o Brasil parece um cruzeiro manobrado na direção de um iceberg. Está ficando tarde para corrigir a manobra.


Caroline dos Santos Barbosa é graduanda em Ciências Econômicas pela UFBA, presidente do DAECO Plínio Moura pela gestão Chico de Oliveira (2026), bolsista PIBIC-CNPQ, e membro do Núcleo de Estudos Conjunturais da UFBA (NEC).

Oscar Luís Rosa Moraes Santos é graduado em Ciências Econômicas pela UFBA, bolsista PIBIC-AF, e membro do Núcleo de Estudos Conjunturais da UFBA (NEC)


edição: Patrícia Maurício

Observatório de Commodities

Vinculado à UFBA, o Observatório tem como propósito dedicar-se à análise do mercado global de commodities, produzindo relatórios periódicos sobre agronegócio, energia, metais e insumos agrícolas, além de pesquisar a crítica da economia política na área da ecologia, contribuindo para a formação técnica de estudantes e pesquisadores e para a difusão de conhecimento para compreensão dos impactos à economia nacional.

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