Pra que(m) serve ser economista?

Entrevista com Carlos Gadelha

Carlos Gadelha é o principal idealizador da abordagem do CEIS. Doutor em Economia pela UFRJ, o professor e pesquisador da Fiocruz é coordenador da Rede CEIS e líder do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e CEIS (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz). Foi titular de secretarias dos ministérios da Saúde, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da Integração Nacional. O entusiasmo em servir ao povo brasileiro transparece em cada palavra dessa entrevista, que pode ser acessada na íntegra no nosso canal do YouTube.

Carlos Gadelha é o principal idealizador da abordagem do CEIS. Doutor em Economia pela UFRJ, o professor e pesquisador da Fiocruz é coordenador da Rede CEIS e líder do Grupo de Pesquisa Desenvolvimento Sustentável, CT&I e CEIS (GPCEIS/CEE-ENSP/Fiocruz). Foi titular de secretarias dos ministérios da Saúde, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e da Integração Nacional. O entusiasmo em servir ao povo brasileiro transparece em cada palavra dessa entrevista, que pode ser acessada na íntegra no nosso canal do YouTube.

Como você se tornou um economista da saúde?

Eu entrei na Fiocruz em 1986, inicialmente com um projeto de pesquisa de mestrado da Unicamp, como um economista do desenvolvimento, pegando a tradição clássica dos pensadores brasileiros Celso Furtado e Maria da Conceição Tavares, a escola da CEPAL e de Campinas. Estudávamos tecnologias emergentes e como fazer políticas de desenvolvimento para microeletrônica, biotecnologia e novos materiais, e os paradigmas eram tecnológicos, não sociais. Mas quando eu aterrisso na Fiocruz eu começo a tomar conhecimento das grandes questões de saúde pública, como as doenças negligenciadas e a importância das vacinas. Foi um choque: a gente estava falando de política industrial e de inovação de forma muito distante da dura realidade da vida. E na definição tradicional de saúde coletiva, que vem de Alma-Ata, saúde não é ausência de doença, saúde é qualidade de vida. E na visão do desenvolvimento daqueles grandes pensadores, eles eram defensores da industrialização, mas críticos profundos dela também. No fundo, a gente está problematizando o padrão de desenvolvimento brasileiro. O Celso Furtado já colocava: “Eu não posso dizer que um país é desenvolvido, mesmo que ele tenha uma economia forte e uma indústria forte, se as necessidades mais básicas da população não são atendidas“. Os complexos econômicos na nossa história, o do café e depois do automóvel, do aço e do petróleo, nortearam nossa industrialização, mas traziam introjetados um padrão excludente e insustentável. A quem serve a indústria automobilística? É para atender ao mercado dos 10% mais ricos. Eu não posso ter qualidade de vida com a poluição da indústria do petróleo, com a degradação ambiental e com a mudança climática que a gente está vendo.

Isso dialoga com a tradição de pensamento dos sanitaristas desenvolvimentistas dos anos 1950, como Mário Magalhães e o slogan Saúde é desenvolvimento“.

É, a minha trajetória não é individual. No mesmo ano que entrei na Fiocruz, era a gestão de Sérgio Arouca e estavam sendo lançadas as bases conceituais do SUS na 8ª Conferência Nacional de Saúde. O economista industrial aterrissa na criação do maior projeto do mundo de inclusão social nos trópicos. A Fiocruz esteve na liderança da concepção do sistema, e ao mesmo tempo o Arouca estava abrindo uma área de ciência, tecnologia e inovação na instituição. O cara era um gênio mesmo. Hoje a Fiocruz é ao mesmo tempo uma instituição social, presta serviços médicos e concebe políticas de saúde, e econômica, já que ela está entre as dez maiores farmacêuticas do Brasil, e, junto com o Butantan, lidera o nosso mercado de vacinas. Bem, mas na época era algo inusitado um economista acadêmico estar numa instituição de saúde pública, onde, no imaginário, era lugar de biólogo e médico. Havia um distanciamento da economia industrial, para não falar da economia em geral, do campo das políticas sociais. Escolhi superar essa dicotomia e integrar endogenamente o campo da economia do desenvolvimento, da economia industrial e da inovação com o campo do bem-estar social e, agora, da sustentabilidade ambiental. Eu estava tentando promover o encontro entre Celso Furtado e Sérgio Arouca. Então, o que que eu posso falar para um jovem economista? O maior respeito que vocês podem ter aos pensadores de economia clássicos é incorporá-los, estudá-los e superá-los no sentido dialético: incorporar o que foi feito e procurar avançar, e não negar. O jovem economista não pode tratar o campo da política social como curiosidade. A economia tem que estar a serviço da vida. 

Isso dialoga com a tradição de pensamento dos sanitaristas desenvolvimentistas dos anos 1950, como Mário Magalhães e o slogan Saúde é desenvolvimento“.

É, a minha trajetória não é individual. No mesmo ano que entrei na Fiocruz, era a gestão de Sérgio Arouca e estavam sendo lançadas as bases conceituais do SUS na 8ª Conferência Nacional de Saúde. O economista industrial aterrissa na criação do maior projeto do mundo de inclusão social nos trópicos. A Fiocruz esteve na liderança da concepção do sistema, e ao mesmo tempo o Arouca estava abrindo uma área de ciência, tecnologia e inovação na instituição. O cara era um gênio mesmo. Hoje a Fiocruz é ao mesmo tempo uma instituição social, presta serviços médicos e concebe políticas de saúde, e econômica, já que ela está entre as dez maiores farmacêuticas do Brasil, e, junto com o Butantan, lidera o nosso mercado de vacinas. Bem, mas na época era algo inusitado um economista acadêmico estar numa instituição de saúde pública, onde, no imaginário, era lugar de biólogo e médico. Havia um distanciamento da economia industrial, para não falar da economia em geral, do campo das políticas sociais. Escolhi superar essa dicotomia e integrar endogenamente o campo da economia do desenvolvimento, da economia industrial e da inovação com o campo do bem-estar social e, agora, da sustentabilidade ambiental. Eu estava tentando promover o encontro entre Celso Furtado e Sérgio Arouca. Então, o que que eu posso falar para um jovem economista? O maior respeito que vocês podem ter aos pensadores de economia clássicos é incorporá-los, estudá-los e superá-los no sentido dialético: incorporar o que foi feito e procurar avançar, e não negar. O jovem economista não pode tratar o campo da política social como curiosidade. A economia tem que estar a serviço da vida. 

Você falou uma vez que, para fazer política industrial hoje, em democracia, é necessário ter missões sociais para a sociedade realmente apoiar.

Eu acho que o CEIS dá uma chance, não te digo que o jogo tá ganho. Porque ao dialogar com a sociedade como um todo, eu permito que a política industrial não seja apenas para as empresas. Me lembrei do Piketty: “A economia é importante demais para ser trabalhada só pelos economistas e pelos empresários“. O apelo que eu faço aos jovens é: saiam da triste torre fechada de marfim e voltem a dialogar com a sociedade. Uma vez eu fui num congresso de medicina tropical e vi o movimento social de pessoas com doenças negligenciadas. Aí tinha lá: “Chagas, precisamos de vacina“; “Malária, precisamos de tratamento que não cause tanto malefício“; “Hanseníase” (que antigamente se falava lepra) “precisamos de tratamento que não seja tão longo que as pessoas o abandonem“; “Tuberculose, precisamos de drogas que não causem tanta reação“. E eu falei, gente, isso é uma agenda tecnológica que vem da sociedade. Em vez de achar que a sociedade atrapalha a política industrial de inovação, a sociedade coloca as demandas, e quando o desafio é enfrentado, ele vira demanda econômica, oportunidade de geração de renda, emprego, inclusive para o setor empresarial. A gente tem que tirar a política industrial de inovação dos castelos; lembrei da Conceição: “eles dizem que não fazem política, mas a política é feita nos jantares, a política é feita nas festas, a política é feita nos encontros sociais“. Mas como dizia o Keynes, é mais difícil eu me liberar das velhas ideias do que eu colocar as novas ideias. Há um risco imenso (1) da política que foca nos setores e nas tecnologias se sobreporem às políticas que focam na sociedade; (2) da sociedade e o movimento da saúde coletiva não reconhecerem a importância da tecnologia e da inovação para a política social; e (3) de nós, economistas, de novo cindirmos o campo tecnológico e da indústria do campo da vida. Isso é uma construção política. A responsabilidade dos economistas é enorme.  

O que você sugere para o currículo do curso de Economia e para os jovens economistas?

Para que a economia seja digna do nome Economia Política, tem que se reconciliar com as ciências sociais e políticas, que não podem ser disciplinas opcionais. As disciplinas das políticas sociais, incluindo ecologia, devem ter um peso análogo às de macro e microeconomia. A Conceição era matemática, então não é para ninguém criar uma falsa dicotomia entre os que gostam e os que não gostam de números. Abordagens transdisciplinares, evitar essa cisão entre os dois campos, procurem ter a ousadia de não ficar fechados no seu pequeno universo de especialização: “o especialista é aquele que, para saber cada vez mais sobre cada vez menos, acaba sabendo tudo sobre nada”.

Uma vez você falou sobre a importância de sonhar.

O que a gente assiste no contexto contemporâneo é o que o Habermas chamava lá atrás, com a crise do Estado de Bem-Estar, do esgotamento das energias utópicas. Estamos assistindo uma total distopia. Minha esperança na nova geração de economistas é que a economia seja útil também para retomar projetos de um mundo sustentável, equânime, e as energias da utopia sejam cada vez mais calcadas em conhecimento científico sólido, e que a própria paz tenha uma base econômica que lhe dê sustentação.


edição: patrícia maurício

O SUS vem propondo um modelo de desenvolvimento econômico puxado pela política social. Nesta edição, deciframos essa abordagem que explicita o caminho a seguir para um país mais rico e justo.

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